quarta-feira, 21 de março de 2012

Eu, aos 16


Estava lendo um post, 100 Facts about me, no blog de uma menina querida.   
Não é estranho o fato de eu ter um momento de choro, mas nesse momento eu tive um pequeno e especial momento de choro. Lembrei de como eu era quando tinha a idade dela. 16.

Na verdade, me vi naquela lista. Eu vi a mim mesma. Só que agora, aos 23, eu perdi muitos daqueles defeitos e qualidades, que na verdade só agora percebi que os amava, e que o conjunto de todos eles é que me fazia ser quem sou, ou era.

Eu acredito que o ser humano se conhece. Sabe quando está perdendo a linha. Talvez, eu tenha me deslumbrado com o mundo novo que passei a ocupar. A paisagem é tão atraente e dificilmente resistível...

Entre lágrimas e pensamentos, me pergunto em que ponto da vida comecei a errar. Que parte do caminho foi a minha perdição. Em que onda desse mar eu comecei a naufragar.

Pode parecer dramático e depressivo demais para você, mas minha vida já foi muito mais interessante aos 16.

Quando eu usava qualquer papel que eu via pela frente para descrever meus sentimentos através de versos. Quando eu cantava e sonhava ser uma estrela. Quando eu acreditava, que um dia eu iria vencer na vida e dar às pessoas que amo, coisas lindas e incomparáveis.

Eu falava muito comigo mesma, me ouvia. Tenho uma caixa escondida em casa, cheia de pequenos papéis ocupados por poemas. Carta de amor, nunca mais escrevi. 

É a idade? É a crueza do mundo? Sou eu? Será o tempo?

23, e uma lista de afazeres que eu queria adiar. 16 e uma lista de coisas que eu queria ser.

Em algum momento da vida, a gente para, pensa, e descobre que a vida se modifica. 

Parte do que um dia quis, hoje é parte da minha realidade. Parte do que eu não planejei, me consome no instante.

Voltar no tempo ou parar nele? Seguir se consertando, tentando buscar a felicidade, feito os peregrinos em busca da terra prometida?

Seguir. Sim. Seguir. E deixar as lembranças, que se instalam no peito como velhos amigos, serem um remédio. Lembrar de mim aos 16 não me fez mal, me fez tão bem. Ainda sou ela, mais velha, mas sou.

Sou ela com 16, mas com 20 e tantos anos.

Sou um corpo e uma boa alma. Sim, ainda sou menina, só que com algumas marcas. No fim, sou um eu feliz. 


terça-feira, 20 de março de 2012

O destino sou eu

"Você é a única que pode impedir a si mesma de alcançar algo". Talvez essa seja a afirmação mais sensata que impregnou minha mente nos últimos dias, depois é claro da que diz "há algo muito errado com você e você precisa descobrir o que é para poder ser feliz".

É nesses momentos da sua vida, que a canção mais triste do universo começa a servir de inspiração para os seus contos dramáticos no diário. Você é uma e apenas uma na vida. Não há outra. Apenas uma alma e erros, falhas, desacertos, decepções e destemperos suficientes por 7 vidas.

Uma vida que se revira no universo. Um amplo e imenso espaço onde tudo pode acontecer. Onde seus olhos podem perder facilmente o foco, onde o destino disfarçado de acaso vem te ludibriar.

A menina que acredita que tudo e nada acontecem com um propósito.

O mundo é todo seu menina. Está aí, livre sem fronteiras fechadas para você.

Essa pequena errante de pouca idade, nascida em setembro e portanto virginiana confusa sobre suas próprias definições, decidiu acreditar que o destino, sim, esse senhor desconhecido, não é nada mais que nós mesmos.

O destino, pensa ela, é um semeador pretensioso, e nós, um solo carente e fértil.

Nós, que detemos as escolhas, somos os senhores do destino. Ao contrário do que se pensa o destino  é inofensivo.

Se você tem o poder de escolher o seu caminho, consequentemente você tem a culpa. O destino é apenas uma tela em branco e você é quem escolhe as cores que vão ocupá-la. 

Mesmo com tantos tropeços, entre o caos e o paraíso. Jogando baldes de água em nosso inferno interior, estamos sempre sendo abraçados por algum tipo de Deus. 

Uma vida toda de erros não vale uma vida, se os aprendizados das entrelinhas não forem absorvidos.

O destino é seu, o destino é você e o mundo só acontece se você não se interpor. Você é a única que pode impedir a si mesma de alcançar algo na vida. É você e suas escolhas que escrevem as linhas da história e de uma vida inteira.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Ame não



Começo a pensar na controvérsia das palavras e em mim mesma, que sou a contradição usando batom vermelho nos lábios.

Ao som de um Blues apaixonado de Etta James, escrevo linhas torpes sobre o que talvez possa pensar sobre o amor. 

É algo tão sinistro, em uma escala que vai das sombras à escuridão. Não sei o que dizer. Minha língua só conhece o que é paixão. E mal acostumada, não quer saber de nada mais profundo e complicado de se compreender. 

Porque, não entregar seu coração e não se importar é um problema a menos no universo. Universo por sinal, em constante caos interior. Dias maus, dias bons, beijos ruins, beijos bons. Amores, desamores. 

Prefiro ir do que ficar. Prefiro o amargo que o doce. E nessa estrada sinuosa não procuro a pureza, nem tampouco a verdade escondida. Quero o que está a mostra, o obvio, o sínico, nada de arrodeio, mistérios, desconversas. 

E não tenho medo de envelhecer. Assim como o vinho, não penso em piorar. Não pretendo estragar.

E comemorar nos botecos da vida, a liberdade, a tal da liberdade. Perder noites, viver nas madrugadas, livre, só. Acompanhada de doses rasas de amor próprio personificadas em um copo de Whisky qualquer. Mentindo, sorrindo, com aquele cigarro de filtro pendendo no canto da boca, que é livre, que é feliz e que não precisa se prender a nada.

Como dizia Janis Joplin, a liberdade é só outro nome para não ter nada a perder. E estava certa, a little blue girl, sabia bem como falar de amor e tristeza.

Enquanto isso eu me engano. Espero que entendam, que minha liberdade, como diz Led Zeppelin, eu guardo com apreço. Mas no fundo, queria dividi-la.

Goles leves, mas constantes. Nada de amor, nem de mãos dadas, nada de beijos longos, nada de cartas de amor, nada de sentimentos, nada de companheirismo. Só. Sozinha e em dupla, sim, eventualmente. Apenas.

Que pena, isso tudo é uma mentira. Pense que quando digo que o salgado, na verdade eu quero o doce. Bem, o mundo conhece essa linguagem. A linguagem controversa, a linguagem da contradição.

Não preciso explicar, que bom. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ideias à deriva


Junte todos os seus planos, passos, sonhos, desilusões e acomode em um saco. Peque suas falhas, seus erros e jogue em uma gaveta.

O saco, carregue nas costas, és totalmente responsável pelo que desejas. Leve o teu mundo nas costas sem expectativas. É quase certo que mil chances sejam perdidas, mas perdemos muito mais que isso sem saber.

Pegue o que vier pela frente, a chance que for. Faça o amor que puder. Destrua a razão quantas vezes for possível. Viva esse agora, e isso não é um clichê, eu mesma vi que é possível. 

Deixe essa melodia tocar, dance conforme o compasso. Não deixe nada para atrás. 

E quanto as frustrações, é como tudo na vida. No começo é difícil aceitar, mas depois a alma aprende que não há mal que dure eternamente e nem dor que dure para sempre. A gente tem o dom de se refazer.

Enquanto vou tecendo essas linhas, eu mesma tento ensinar para mim que o mundo dá voltas, e que a história de raios que nunca caem sempre no mesmo lugar, podem apenas ser relativas.

O mundo não segue uma regra. Não há caminhos prontos. Nesse grande contexto da eterna segunda-feira, a gente aprende com as experiências.

São os goles que se bebe da vida que te ensinam como vivê-la melhor. Não é a quantidade de anos que se vive, e sim a intensidade com que se entorna a bebida púrpura inebriante e viciante que é a vida.

Aqui, você vira contador de histórias de náufragos sem nunca ter sentido o gosto salgado do mar. Isso é comum, mas nem todo mundo sobrevive. É por isso que reitero a frase, a vida não segue uma regra. Para essa perigosa doença não há remédio prescrito. 

Cada qual encontra a sua cura, feito peregrinos em busca de algo no horizonte. A gente vai tatuando a alma com as experiências. Sangra e dói, mas é doce e viciante.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Sem título

Um dia você se descobre dançando conforme a música do universo. Um dia, você se olha no espelho e se vê a vítima perfeita da contradição. Você, um grande paradoxo do universo, sempre negando seus instintos, podando seus sentimentos e negando chances. Querendo no fundo, um par de oportunidades para sentir.

Quem é a figura no espelho. A alma tem correntes?

Universos ambulantes, falando sempre o contrário do que sentem, acumulando remorsos, escondendo qualquer resquício que deixe transparecer sua fragilidade, diante do inacreditável e piegas sonho comum de felicidade.

O mundo é um só, ele rodeia camas diferentes, mas no seu âmago queria um leito quente e único, onde nenhum outro corpo estranho pudesse chegar.

O grande protagonista da peça que encena a frieza. E dane-se o sentimentalismo e qualquer ruído de palpitação. O que se quer é emoção, suor e corpos entrelaçados fisicamente mas desligados totalmente das coisas abstratas, não palpáveis e intocáveis feito as coisas do coração.

É só fluxo, fluído, massa, corpo, calor, ardor, leveza e nada mais. Fácil falar, e isso, o mundo tem demonstrado bem. É fácil tornar a alma cativa da boca, que fala sem parar a contradição absoluta, e torna o abismo entro o que a boca diz e o que se quer na realidade.













segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Inside

Você viaja para longe, na intenção falha de esquecer quem és de fato. Tu atravessas um território imenso, e engole quilômetros de distância do que tu realmente és.

A gente esquece, que não importa quantas doses sejam entornadas, no outro dia os teus dilemas estarão na tua porta na hora marcada. Então, sóbrio e desolado irás rir da tua desgraça.

É bem pior saber o que deve ser feito e não fazer. Eu sei que sozinha eu sou bem melhor. Minha personalidade infame ajuda muito nessa questão. Mas o medo de sentir remorso um dia pesa bem mais que mil toneladas de chumbo.

Eu abri a porta do desespero quando decidi voltar ao ponto inicial da vida em família. Os mesmos problemas tendem a ficar no mesmo lugar, como crianças mau educadas que não levantam para ceder espaço aos mais velhos.

Tu olha esse ano que mal se iniciou, e já tens vontade de agir como Judas e fugir covardemente da tua culpa.

Nas listas de cabeceira eu tenho mil planos incompletos de vida. Já dizia Murphy, o que tem que dar errado, vai dar e da pior maneira possível. Que homem sensato.

Você não é a única pessoa no mundo, que levanta pela manhã decidida a ter um dia bom.

De repente, a marcha suprema da vida não pode seguir por causa do nevoeiro turvo que se apoderou do horizonte.

Acho isso aqui perda de tempo. Esse turbilhão que me invadiu hoje não pode ser domado com palavras. Chorar talvez funcione. Vamos tentar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Tudo em família

As várias maneiras de se expressar o amor em família, muitas vezes não são o bastante. Eu poderia espremer todas as formas de amor e criar a formula da boa convivência, mas se a vida fosse assim tão simples se chamaria conto de fadas. E não, não é.

Nessa história longa que atravessa os seculos, os príncipes e princesas, reis e rainhas, são a personificação mais clara do que é a imperfeição humana.

Caberia aqui, como uma bela metáfora da vida, a história de heróis e dragões, mas heróis frustrados e dragões invencíveis. 

Já dizia uma sábia amiga, que a convivência é a maior vilã de todas. Pessoas, diferentes, com suas maneiras de ver a vida, de pensar sobre o mundo, de enfrentar dragões, de caminhar, de viver. Cada qual com suas falhas, defeitos, problemas, desafetos, armas de defesas e coração.

E no mesmo caminho que atravessam juntos pela vida, a felicidade é o que procuram. A dor que dividem, o almoço e o jantar, as conquistas, os planos, os sonhos, a paz e a guerra de personalidades. Família, é aquele abrigo imaginário para o qual todos quanto podem, correm para se sentir seguros.

Conflitos, os dragões dos contos fantásticos. E nós, seres terrenos, os heróis medíocres da era moderna. Dispostos a amar. E, se quem amamos soubessem o tamanho do nosso amor...

Meu pai sempre diz as palavras duras e afiadas como a espada dos grandes guerreiros. "Tens que amar a ti própria também... pois existindo amor próprio, existirá amor ao próximo, inclusive aos pais... Amor não é só da boca pra fora, vem de dentro, e se personifica através de boas atitudes, de respeito e consideração".

Até a rocha mais resistente de todo o universo, não poderia deixar de fluir água de suas fendas ao ouvir essas palavras.

Alguém tem que ceder. Os mundos ambulantes estão muitas vezes, ludibriados pela soberba.

Eu estou falando de amor incondicional, era essa minha intenção. Falar de amor de mãe e pai, irmão e irmã. Amor de vó.

Família é aquele colo gigante que te acalenta. É o local perfeito para se ouvir umas verdades que ninguém no mundo inteiro tem coragem de te dizer. É o lugar onde os teus defeitos estão bem guardados do mundo que te julga.

Ali, todos os problemas, as mágoas, as brigas estão em família. Você está seguro, você está bem. 

Cada família é uma universo dentro de um universo. Cada uma com suas histórias de reis e rainhas, heróis e dragões. 




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A vida merce um post

Reclamação dia após dia, parece normal. Em um mundo complexo, cheio de mini universos ambulantes. Cada um com uma carga específica sobre sí.

Ninguém quer correr para o futuro. Os passos aqui são curtos e lentos. A face desconhecida do amanhã amedronta, instiga, cala e deixa o hoje para ser vivido sem data prévia. Nada de compromissos, isso assusta.

Mas sempre há o que se comemorar. Os calendários terrenos, estão cheios de compromissos com suas respectivas intenções comerciais bem apresentadas. Todos querem participar.

Como pequenas lagartas em plena metamorfose. 
De olhos fechados parecemos tão inflexíveis às mudanças. Um mergulho profundo no mar de delicias que a vida oferece, pode mudar a direção dos passos. 

É claro, prazer reservados para os que sabem nadar e não tem medo do desconhecido. Porque a vida não é nada mais do que um misto complicado de incerteza e sorte. 

Do mundo das ideias os seres paridos surgiram, sem escolha e consulta prévia. Convidados para uma festa manipulada e idealizada pelos deuses do universo. Sem direito de declinar. Por que não viver? Prove o banquete, veja se gosta.

Novas melodias, novos prazeres, nova ordem, nova vida. E você mergulha, mergulha fundo na garganta doce da vida. Eterna puberdade, mudança inevitável. Rugas, espelhos quebrados, planos desfeitos, partos, partidas, vindas, amores, destemperos e um mar gigante. Um mar imenso de culpa e vida para viver.

Seres ludibriados pela beleza do mundo, de repente o banquete lhes pareceu prazeroso demais, mas ninguém avisou que a festa acaba e o baile termina. 

A intrínseca ideia de dor e  morte, o doce e o amargo, o antigo paradoxo, vida, vida e morte. Vida e sobrevivência. Vida e amor.

Vício frenético de fugir do tempo. Viver e tomar todos os goles possíveis. Nadar, nadar no profundo e imenso mar. Sem ordem e roteiros pré determinados. Por que afinal, isso é viver. O estupor, as peripécias do enredo.

É só abrir os braços e nadar, nadar, nadar.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Ano velho sou eu


Primeiro dia de um novo ano, Scorpions fazendo a trilha de um domingo atípico e eu chego a conclusão de quê por mais que nossos planos estejam bem estruturados no mundo das ideias, a coisa desanda bem rápido quando se trata da vida real.

Temos então, um novo e imenso conjunto de dias nos quais poderemos quebrar promessas, desfazer planos, decepcionar pessoas e fazer tudo errado do jeito que sabemos bem.

É um vício, procrastinar. É comum deixar a vida por fazer. 
Todos de branco louvam a entrada do novo ano. É só uma questão de nomenclatura, a vida depois dos fogos continua a mesma.

Acho que nesse ano já posso cuidar de um cachorrinho. Talvez eu encontre um equilíbrio entre o meu individualismo e a coletividade. O mundo é singular tanto quanto eu sou.

A cada ano que passa, comemoro menos as festas de fim de ano. Eu só vejo mudanças no calendário, quero ver mudança em mim. Um dia talvez, eu festeje de branco a paz interior e a alegria do dever cumprido em 365 dias da vida. Mas até o momento, ainda tenho entraves do ano passado para resolver. Perdi tempo demais, e o pior, não sei em que bar ele foi desperdiçado.

Eu tenho dilemas do ano passado, e sou eu. Tenho assuntos não resolvidos comigo mesma. Eu sou meu fardo.

Não parece tempo demais?

Eu bem que podia fazer uma lista de coisas que tenho que fazer para ser mais feliz durante o ano recém nascido, e essa se juntaria a muitas outras que tenho guardadas no fundo de um armário.

As incertezas continuam. Ainda somos o problema. O mundo ainda é o mesmo.

Parece que temos uma vida inteira para corrigir nossos erros. Parece.
E o mundo vive a sensação de novidade, quando tudo na realidade é velho. Hábitos velhos. Mundo velho. Esse não é um novo capítulo, é a mesma história sem fim.

Qual a moral da história? Quem sou eu para dizer. Feliz ano novo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Tira de mim o fardo

O sentimento que me invade não é límpido, não é certo e o julgo sujo. O turbilhão que me invade, me deixa tonta e atormentada pelos passos incertos que transformaram meus caminhos em um verdadeiro desastre.

Um corpo estranho nadando contra a imensidão do mar da vida. O erro é meu. Os defeitos são meus. Alcanço a redenção se assim admitir sempre? Alcanço o paraíso se me colocar como cristo todos os dias?

O caráter e a personalidade salgada, chegam a ser amargos ao paladar materno. Não tem sido fácil não ser o que o seio de minha mãe planejou e desejou enquanto me amamentava. Sou o conjunto imprevisível de todos os erros que não se desejaria para um filho. O pior é o exagero. O pior é isso, não saber ao certo o que se é.

Se o inferno for real, admito, ele é o meu destino merecido. Não só pelo meu mau humor, mas pela minha alma  amarga que se tornou. Por ir contra a vontade do Cristo, de amar o próximo como a mim mesmo e não dar o outro lado da face ao que me agride.

Não mereço a glória dos que caminharam sobre a terra sem causar nos outros a repugnância.
Sou eu a causa. O erro está em mim e admito. Não mereço o paraíso.

Desculpa mãe por não ser o que gostaria. Perdoe-me pai por ser a ovelha mau criada, que se desvia do pasto em busca de algo que nem sabe.

Por não ter a doçura, por não gostar de natal, por não comemorar aniversários, por não esperar para entregar presentes, por dormir demais, por falar muito alto, por me embriagar, por odiar o mundo em manhãs chuvosas, por deixar o sapato na porta da sala, por espalhar coisas pela casa, pela bagunça no meu quarto, pelas palavras de amor que não digo pessoalmente, eu peço perdão.

Pelo silêncio que afogo no travesseiro.

Em nossas listas de remédios secretos, estão as músicas que tocam a alma e nos fazem refletir o quanto estamos errados.

Temos a vida inteira para encarar os dragões, mas procrastinos como somos, deixamos sempre a obrigação natural de amadurecer para depois.

E o passo curto se converte. E as taças e copos de ilusão nunca secam, nunca enchem por completo.

A sua rebeldia se destaca. O mundo vive mudando e você, bem, você continua o mesmo. Sempre querendo ser o que quer. Sempre tentando fazer os outros crer que a sujeira no seu caminho é natural.

Você está tão acostumado com seus erros, que nem os percebe mais. Os dias porém, sempre reservam lapsos e   visitas inesperadas do bom senso e da razão. Quando esse momento chegar, é hora de pronunciar a palavra mágica que move o céu e joga no esquecimento todo erro do pecador.

Talvez o inferno não seja um destino tão previsível assim.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

É hora de perambular





Durante a correria cotidiana , bebendo goles e goles frenéticos de café para não deixar esfriar, escrevendo com prazos, dividindo com a humanidade além dos problemas coletivos nossos fardos íntimos. Não nos damos conta de muitos detalhes.

Ontem quando o sol se pôs atrás do horizonte, o meu mundo ficou mudo enquanto um raciocínio incomum brotou na minha mente.

Ali, eu sozinha, quando menos esperava, refleti sobre os deuses e o papel que atribuímos a eles. Já parou para pensar em quantas coisas estão ao nosso alcance e simplesmente deixamos a responsabilidade de fazer acontecer a cargo do senhor destino?

Veja bem, não estou falando de fé, nem tampouco de religião. A covardia é característica de ateus e não ateus, porque longe das questões espirituais somos seres humanos caminhando por aqui, sempre renegando o nosso papel real.

É muito cômodo esperar que o destino, o acaso, os deuses e forças do universo ou seja lá no que você acreditar, se encarreguem de trazer aquilo que desejamos e todas as coisas boas das quais precisamos, enquanto lunaticamente mergulhamos em um poço fundo de preguiça. Repetindo o mantra "dias melhores virão". E quem você acha que vai trazê-los?

Lutar pelo que se acredita e deseja é o clichê que atravessa os séculos sem perder sua verdade. Um dia eu disse que o destino é um bom senhor de face desconhecida que nos dá somente aquilo que merecemos da vida. Tudo é uma troca justa.

Vou esperar Deus ser bom e me dar aquilo que desejo? Sentada à beira da estrada eu vou esperar eternamente, por que aquilo que eu não for buscar com minhas pernas não virá pelo esforço de outros, quem dirá do destino que não é palpável.

Quem não semeia não colhe. Está na hora de perambular em busca do que é nosso.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Segundana

O lado patético da vida é sempre aquele que é vivido com maior intensidade. Incrível. A contradição parece ser o meio mais interessante de se dizer algo. O que é piegas e puramente clichê, parece encantar mais do que a originalidade das palavras curtas.

O que parece, é que o mundo inteiro, entenda isso como exagero, perdeu totalmente a capacidade de raciocinar e criar suas próprias pontes. Talvez seja esse o motivo que tem tornado distante os mundos entre sí.

Entenda a vida como uma corda fina e bamba. Você sem suportes e nem asas, prefere ficar onde está do que arriscar atravessar o precipício, sem nenhuma promessa de encontrar o paraíso do outro lado. Isso seria interessante se não comum.

E assim se descreve a vida. Nada de trocas justas. Mas trocas com intenções pré definidas, são negócios mais fáceis de satisfazer a clientela.

Vida incerta. Tão insana quanto as melodias setentistas de Led Zeppelin. Vida desonesta, tão depressiva quantos os poemas de Manuel Bandeira. Um puro desalento. Nada segue uma linha certa, nem um ponto alvo. É tudo ao vento, desatinos, desafios, desamores.

E o sentido? Está perdido, vagando por entre os séculos. Fim.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Bad day for me

Sim, na vida existem os dias bons. Mas também existem aqueles em que as comportas do universo de problemas se abrem. Aqueles em que a Lei de Murphy faz todo sentido e qualquer melodia de Blues em um raio de 3 km pode provocar o maior número de lágrimas possível.

É incrível como todo o controle da vida pode se esvair com um simples amanhecer. Nós, seres humanos, cheios de nós mesmos e confiados em nossa inteligência, ao menor sinal de mudança beiramos o declínio social.

É duro ver nossos planos todos desfeitos. Ficamos bravos quando a rotina não segue a linha que traçamos. E que engraçado, odiamos rotina.

Vivemos nossos dias baseados no que as notas verdes e coloridas podem nos proporcionar. Um mês sem algumas ou muitas à menos, pode ser o estopim do desespero.

A vida podia ser mais simples e se limitar à enfiar todos os seus problemas em um saco de papel, queimável. Mas quem toma conta dela? Eu dela, ou ela de mim?

De quem é esse roteiro piegas? De quem é a ideia dessas peripécias? Qual é a intenção desse teatro? Eu me pergunto como se não fosse normal indagar Deus e as forças do universo que me rodeiam.

Eu procurei a música mais deprimente para ouvir, e hoje, nesse dia, qualquer uma pode ter essa característica.

Não controlamos o rumo de tudo, principalmente o do destino. Se amanhã chove (espero que estejam compreendendo a metáfora), deixe chover, e faça mais, corra para a chuva e chore junto com o céu. Ninguém vai ver, eu garanto.

No final de tanta reclamação, eu não sei mesmo de quem é a culpa. Talvez seja da minha ansiedade. Pode ser talvez da minha personalidade desligada de compromissos. Quem sabe, sejam as palavras durar que proferimos e que como doenças vão nos corroendo dia após dia, fazendo com que nada esteja bem.

Existe um sentimento em nós que se chama remorso, e esse, sem dúvida alguma é o maior causador de morte à longo prazo. Te mata lentamente e com um sabor bem amargo.


Apesar de possuirmos tudo, não temos nada, e nada faz sentido se dentro de nós a paz não reinar.


Bom, esse rodeio todo é simbolo da minha prolixidade. Na verdade é bem simples, o dia não está nada bom, e se lagrimar é chorar, eu já deixei rolar uma enxurrada.

Hoje não há maquiagem, só olho fechado e rosto segurando choro. Amanhã é outro dia.



terça-feira, 11 de outubro de 2011

A gente sempre tem um dia ruim.

Somos como sacos largos cheios de defeitos. Carregamos a nós mesmos por toda a vida e depois pela eternidade. E se houver eternidade, céu e inferno a coisa complica ainda mais.

Vivemos o doce e o amargo que o caminho escolhido pode proporcionar. Buscamos saídas e sentidos próprios. Cobramos promessas, promessas sem garantias, mas cobramos.

E será que não é possível perceber que não existe perfeição? A resposta é imaginável, todos devem pensar assim, no entanto, estamos todos sempre buscando as causas de nada ter dado certo para queima-las em um fogueira. Alguém tem que levar a culpa.

A vida inteira negamos a fogueira. A vida inteira sabemos o que deve ser feito, mas seja lá o que age contra o senso de justiça da nossa consciência, estamos sempre fugindo pela diagonal. Fugindo da verdade. Afogando o senso crítico, desprezando o auto-juízo, negando a falta de vergonha na cara. Dissimulando.

O que mais se pode exigir de seres órfãos, que não sabem nada sobre a sua própria existência a não ser aquilo que está nos livros de ciências que os professores da 5º série insistem em plantar em suas cabeças. Essa rebeldia contra a vida não tem nome. Ser humano não rima com ser perfeito.

Eu não preciso viver um século para saber que estou errada, ou que minhas atitudes infernais tiram a paz de quem não precisa conviver com minhas falhas, e convive, sabe Deus por qual motivo.

Não seria mais fácil banir de nossas vidas o que não é bom, o que não faz bem, o que não acrescenta e não tem essência?

Acho que isso não leva a nada. Desculpa, estou apenas tendo um dia ruim.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro

Faço das palavras de uma amiga virtual, as minhas próprias. Onde você espera que eu seja uma amante submissa, eu sou apenas uma garota qualquer sem coração e respeito.

Não espere que eu seja no geral, o exemplo de benevolência e compreensão. O modo automático está ligado na opção que favorece o instinto. O meu sexto sentido trabalha para mim, e por mim só ele existe.

Diz a lenda, que existem dias em que a lua influi no teu jogo de sobrevivência cotidiana. Dia 18 é lua cheia. Isso explica esse ardor incontrolável de querer beber da vida como se não houvesse nada mais para matar a sede?

O mundo louva a chegada doce de setembro. O início da primavera, o clima bom, o fim do ano. Mas para mim, bem, esse mês não passa de um mensageiro tímido que me diz todos os anos, há mais de duas décadas, que meus dias sobre essa terra estão sob o controle exigente do mestre tempo.

Ele não me coloca medo. Temos um acordo de sobrevivência, eu não corro atrás dele e nem ele me persegue. Tudo em sua hora.

O senhor destino, aquele que desacredito, baterá mais uma vez na minha porta, e eu?

Setembro nada mais é para mim, do que o mês escolhido por Pandora para me tirar da caixa. Somos para nós mesmos os mal mais necessário que pode haver.

Com o que mais se aprende a viver, senão com suas vivências e reflexões. Quem sobrevive de conselhos inúteis? A vida, não segue uma regra, e se não há repetições ou destinos viciados, não há por que impor atitudes. Então deixa a roleta seguir a jogatina. Faça suas apostas, calcule seus ganhos, observe suas perdas e veja o que vela a pena.

Seria fácil, pegar o manual da vida cotidiana e resolver meus problemas, principalmente os sentimentais meus caros. Mas o criador bondoso, deu a todos nós a chance de fazer e refazer nossos caminhos, e nossas próprias escolhas. Conselho ajuda, mas não resolve problemas. Então, se quer um conselho, não me peça nenhum. Pergunte a si mesmo.

Gosto da temperatura do tempo passando e levando com ele mais um pouco de mim. Faço das palavras de outra amiga virtual as minhas próprias. Analisando todas a minhas falhas, fraquezas, defeitos e dificuldades de lidar com o mundo lá fora, acho que posso arriscar um diagnóstico: sofro de juventude, mas isso, ao longo do tempo, setembro vai curar.

Deixa ele vir então. Tenho uma primavera inteira para amadurecer.


Créditos de frases:

"Onde você acha que sou..., eu sou..." - Danielle Viviane
"Sofro de juventude" - Cristiane Leite

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Instável.

Eu consigo me superar eu sei. Provei a mim mesma como é possível fazer o maior número de planos em um mês e abandoná-los na mesma velocidade.

São mais de duas décadas e o mundo inteiro já mudou. Tudo muda, menos eu. Em 20 anos, raciocínios foram modificados, territórios foram demarcados, guerras aconteceram, curas foram encontradas, sacrifícios humanos foram feitos e eu continuo a mesma.

Odiando e amando as mesmas coisas. Refutando e subestimando os mesmos atos corriqueiros da minha feminilidade. Negando os mesmos desejos. Sendo escrava do mesmo instinto.

No princípio eu era um caso sem solução, hoje sou uma garota sem jeito. Não tem jeito. O vento sopra para outra direção.

Continuo aperfeiçoando o meu dom infame de puxar assunto com estranhos. Continuo mantendo a tática deplorável de fingir que não estou vendo. Continuo andando como se estivesse participando da abertura de um seriado americano, com uma música badalada de fundo. Eu não tenho mais 15 anos.

Não me interprete mal, só estou tentando ser clara, mas ser prolixa é um dos defeitos mais persistentes da minha personalidade.

O fato é que meu ambiente psicológico anda aflorado por dardos vindos de uma direção contrária que me atrai facilmente.

De repente tudo o que quero é arrumar as malas, ou nem levar malas, e sumir por um instante do campo de visão familiar que se tornou essa cidade.

Meus defeitos não combinam com esse lugar. Eu quero sair. falar palavrão. Deixar o pecado escorrer pelos cantos da boca.

Não quero tranquilidade. Não quero mãos dadas, não quero companhia, não quero coração, não quero alma. Eu só quero o corpo e o fluxo coerente. Eu quero o que me cabe. Eu quero o que cabe em mim. Mesmo que isso esteja há milhas e milhas de qualquer lugar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Peripércicamente...

Quando eu falo de inferno pessoal estou me referindo aos demônios que temos presos dentro de nós, eu falo dos espinhos na carne que carregamos, eu falo das nossas falhas, falo das fraquezas, falo das dores, dos amores, das incertezas, falo do caos interior que só eu e você conhecemos bem.

Nunca neguei ser um paradoxo. Nunca neguei viver na contradição. Portanto, nos dias em que meu sorriso estiver mais largo, saiba que esses serão também os dias em que a alma estará mais pequena.

Quantos sorrisos por aí, não escondem a face mais triste. Máscaras otimistas vagam pelo universo. E eu, sempre tão distraída, me torno mais uma.

O rosto que vejo no espelho todas a manhãs me parece familiar. Nas madrugadas pode chegar a ser irreconhecível. Com todos os truques, com todas as jogatinas, com todos os artifícios usados para esconder-se, quem pode duvidar que a face que se vê é na realidade a tela de proteção do rosto inseguro.

Ninguém precisa saber o que se passa aí dentro. O inferno é seu e só você pode confrontar-se a si mesmo, por que se conhece.

Alguns tentam melhorar um dia ruim escrevendo versos em pedaço de jornal velho. Outros escutam a mesma música freneticamente uma dezena de vezes. Outros choram, outros bebem, outros cantam, outros apenas trabalham. Mas eu, bem, eu. Eu espero o sol nascer de novo. Não há dia ruim que uma aurora não cure.

Alguns dias são mais quentes que os outros. dentro ou fora de você.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Troca

Pode parecer piegas, mas fazemos o que temos que fazer, para poder fazer aquilo que queremos fazer. A vida não nos dá nada de graça. Tudo é uma troca justa.

Tudo é uma troca justa. Uma recíproca. O universo é um bom senhor que nos dá apenas aquilo que merecemos. Embora esse senhor tenha um rosto misterioso e desconhecido, sabemos no fundo, que ele é possuidor das pedras que lutamos para ter em nossas coroas.

A grande piada do destino é o livre arbítrio. A grande piada da ilusão é consciência. A grande piada do amor é a rejeição. A grande e maior piada da vida é a morte.

Caminhamos sem parar afirmando nossas forças, nossas ideias. Flutuamos nas entrelinhas do passado tentando fazer do futuro a nossa conquista. Mas o que está em nossas mãos além do leme maior? O que faz da nossa aventura terrena um conjunto perfeito de boas escolhas? O que faz das nossas decisões, a receita perfeita do bolo? O que rege a alma e acalenta o corpo?

Nos enganamos ao pensar que tudo está sob o nosso controle. O mundo, sem mecânica alguma gira sem parar. O sol, sem mecanismos humanos, nasce e se põe todos os dias.

Me pergunto de onde vem então, a significativa arrogância do ser humano de achar que o mundo depende dele, e somente dele para acontecer.

Nem os amores e as coisas não palpáveis dependem de nós... Em nossas mãos estão apenas as ferramentas necessárias para conquistar os frutos que merecemos colher.

Eu quero trocar apenas o que me cabe. Receber da vida o que eu daria a um amigo. O que está bem aqui nas minhas mãos...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Contra dição. Contra dizer.

Eu nunca cultivei a tristeza, mas é impossível ser imune. A vida é uma mistura heterogênea de tristeza e felicidade. Somos as vítimas constantes desse paradoxo. Somo prisioneiros da boa vontade das forças do universo, de conspirarem contra, ou a favor de nós.

Nós, perdidos no centro do mundo tentando nos encontrar. Tentando crer que o destino não existe e o acaso é um plano subliminar. Existem dias ensolarados em que se pensa em chuva. Existem dias chuvosos que reservam um sol milagroso. No fim, nunca estamos satisfeitos.

Tudo gira em torno da ideia de que sozinhos não estamos, mas sim separados e incrivelmente ao mesmo tempo interligados por uma ponte espiritual.

Eu tento não acreditar em destino. Eu tento desprezar os acasos da vida. As vezes tento aceitar as coisas como são. Geralmente eu acabo me convencendo de que o que tem que ser, será. Vício frenético. Alguém me programou com uma dose forte de ceticismo e outra maior ainda de indecisão.

E eu vou levando a vida sempre caindo nas minhas contradições, por que afinal, o que me define é não saber de onde vem o universo.

Diz o autor norueguês que aquele que quer entender o destino tem que sobreviver a ele. Eu pretendo descobrir o que está reservado para os meus dias no calendário divino ou em qualquer outro que seja.

Eu nunca deixei de acreditar. Só me viciei em me enganar um pouco. Só me viciei em fingir que não lembro.

E somos vítimas da mentira que contamos a nós mesmos, e ainda assim, existe uma ponta de bondade destina a nós.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Forever Young

Quando eu penso em estradas sinuosas eu lembro de uma canção que diz: "todas as estradas que conduzem até você eram sinuosas". Ainda estou tentando achar um significado para o "você" na minha analogia. Essa em especial é antiga e provoca flash's de um passado não muito distante da minha vida, tipo, ontem.

Outras músicas me trazem lembranças da infância, que foi sem dúvida, a que toda criança deveria ter. Meu pai tinha um ótimo gosto musical, e eu lembro de mim aos três anos cantando Forever Young do Alphaville, em cima da mesa da cozinha.

Apesar de 20 anos terem se passado, eu ainda me vejo daquele jeito. De certa forma, eu era bem mais interessante quando me importava apenas com o que meus pais achariam da minha apresentação de talento doméstica. Eu sabia que por mais errada que fosse a minha pronúncia da letra, eu seria aplaudida e mimada no final.

O público é outro. O século mudou, e eu me sinto completamente nua no meio de uma multidão anarquista. De repente as minhas ações já não agradam aos grandes mestres, e isso me frustra, principalmente pelo fato de que eu pareço gostar daquilo que me tornei.

A pressão dos kilogramas. Cílios postiços. Cabelos tingidos. Salto alto. Vestido colado. Blush. Batom. Curvex. Perfume francês. Langerrie. Amor. Ódio. Desapego. Frieza. Noites em claro. Whisky. Eu me pergunto onde está a mesa da cozinha de 20 anos atrás. Onde está aquela menina?

Um dia você cresce e vê seu coração batendo forte por meninos. Um dia você acorda e vê seu corpo em erupção. Um dia você dorme uma menina e acorda uma mulher. Um dia você descobre o que é a vaidade e o que poderá ser capaz de fazer para satisfaze-la.

Um dia, você percebe que o olhar carinhoso dos seus pais já não é o bastante. Você quer o olhar do mundo. Então passa a sair pelas madrugadas a procura de alguém que te faça sentir desejada.

E então percebe que todas as estradas do desejo são sinuosas, e que o mundo é viciado em usar, viciado em prazer, viciado em ter por um momento e abandonar por uma eternidade.

Então, quando toca aquela canção, tudo o que você quer é voltar a ser criança só para poder voltar a sentir o aroma do amor sincero. Aquele que é de verdade e eterno.

Quando o último acorde soa, a menina cresceu e se viu novamente acostumada ao desapego. Foi só um flash. A roleta viciada agora gira na jogatina na mesma direção.

E então ela segue para mais uma madrugada em claro. Ela é mulher.