segunda-feira, 5 de maio de 2014

Assombração

Cheguei às 4h, com litros de álcool na alma.
Deixei no sofá da casa de meus pais, meus anéis, pulseiras, brincos e um cordão de ouro.
No coração continuou a ecoar teu nome.
Lavei o rosto, me olhei no espelho.
Vi que tua lembrança me assombra mais que a certeza de estar viva.
Lembrei do teu desdém. Tarde demais, já disse que te amo.
E te amo, tanto que nem porres, nem outros encantos, nem outros homens (já tentei), nem outras expectativas podem apagar o que por ti eu dediquei.
Não haverá retorno, eu sei, mas fica aqui o que me assombra: tu.

Quem acredita em assombração?

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mãos dadas

Me pediram para falar sobre você. Eu falei.
A primeira coisa que se iluminou em minha mente foi a lembrança de você abrindo caminho em meio a multidão de uma cidade movimentada, segurando minha mão, me guiando por ruas pelas quais nunca havia caminhado. Era domingo, o sol estava lindo, talvez meus olhos estivessem mudados. 

Era fevereiro. Eu soube, seria o melhor.

Segurando minha mão, assim daquele jeito, como quem guia alguém a quem quer bem. Daquele jeito eu não tive dúvidas, e nem as tenho agora. Desse jeito apertado como a tua mão na minha, eu não posso negar contar para quem perguntar e para os demais, que tu é o meu par, a minha versão. 

Sobre você eu falei de amor. Eu falei de ti para mim, eu disse é assim, é esse. É com ele que eu quero andar de mãos dadas. Seja para onde for. Seja o que for, para onde for, e se for. Eu sei que é. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Deixa ser


Hoje, para ser diferente, acordei com vontade de caminhar para qualquer lado, qualquer canto.
São os sinais que a vida dá. São as pequenas revoluções em nossa maneira de pensar. Olhos abertos, olhos fechados. Olhos dispostos a ver, olhar através da penumbra das opiniões amargas sobre o destino, sobre o que o amanhã reserva.

Um dia, desses que nunca se espera, vai amanhecer sem aviso. Em um tempo de águas paradas há sempre uma visita inesperada. São os pequenos casos impensáveis da vida subestimada. São as pequenas felicidades de ver em acontecimentos aleatórios, pontos costurados entre si que constroem a sensação mais perfeita do "isso era para ser". E será, o que tiver de ser. Será o que escolher ser.

Haverá manhãs reveladoras em um dia qualquer.

Eu vi que algo só acontece quando a tentativa de forçar os fatos cessa. Quando a felicidade não é apenas um apelo para viver a vida.

E quando acontecer, deixa ser. Deixa as águas seguirem o percurso, deixa você suas ideias antiquadas de como tudo tem que ser. Esquece o medo de desatinar.

Algumas coisas só acontecem uma vez. E no ensaio da vida o bonde não tem sino. Abre os olhos, abre os braços. Uma hora vem.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Pedaços



Eu não tenho apenas uma alma gêmea, eu tenho várias. Partes desfragmentadas de mim e espalhadas por aí. Vez ou outra eu me deparo com uma. Nos olhamos, e nos compreendemos sem que uma só palavra seja dita.

Vez ou outra eu me deparo com alguém que me compreende tão bem que parece ser eu mesma.

E o que parece é que sou como um quebra cabeça incompleto. A parte de um todo que só se consolida com a outra parte existente em outro alguém.


Outro amigo, outro amor.




*Ilustração por Andrelle Bedê

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A canção do vício



Quem é que vai dizer a verdade quando essa música acabar? Eu podia transformar todas as minhas lagrimas em canção. Ninguém iria negar.

Ninguém negaria, ninguém iria admitir, que o tempo passa através de mim e leva milhares de pedaços invisíveis.

É a vocação espetacular de ignorar o fim inevitável de todos os dias. 

Caem como sombra fina, e florescem ao amanhecer. Um dia a mais e um dia a menos parecem coisas tão similares.

Os olhos que se abrem para o que está distante o bastante para não existir. É o vício que a alma acalenta. O vício eterno pelo impossível. O vício de querer viver eternamente na memória, na alma, como um sopro, como uma mancha, como uma cicatriz. 

É essa estrada desconhecida da vida, é esse veneno que também é o remédio.

É a mesma dor que te desmonta que junta teus cacos.


É a impavidez do amor, que eu e você nascemos para ter.


(Ilustração de Andrelle Bedê)

terça-feira, 11 de junho de 2013

All my mistakes

Eu li em algum lugar que a vida é um conjunto de decepções. E diria que ela é um conjunto de decepções causadas por outros e por nós mesmos.
Somos o nosso maior carrasco.
Carregamos nas costas o peso de todos os nossos erros, de todas as nossas escolhas erradas.
Pagamos o preço da nossa negligência. Sentimos o dissabor dos amores que deixamos partir.
Provamos o gosto amargo das tentativas que não fizemos. A gente acorda e já temos uma lista inteira de coisas na vida para consertar, inclusive nós mesmos.
A gente leva uma vida inteira para se adequar à rotina intrigante da vida e ao ciclo vicioso do amor.
E ainda que estejamos prestes a naufragar, a gente tem o poder de se reinventar.

Leva um tempo para descobrir onde dói, mas a gente tem o dom de se refazer. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Lie

Volta e meia repensamos as palavras ditas, desmentidas por atos. Tudo o que nunca te convenceu realmente, se mostrou mentira e sua intuição não sabe se vibra de alegria ou some no meio das lágrimas. 

Depois da queda, remoemos as mentiras que levam um tempo até não causar mais dor. 

O problema é que nos apegamos facilmente ao significado das palavras. Palavras traiçoeiras vindas de certas bocas, proferidas em momentos oportunos de vulnerabilidade. 

Dizem o que você deseja ouvir, e você torce para que no universo possível tudo o que foi dito seja verdade. 

É pura vaidade. E o pior castigo é ver as palavras se quebrando pelos espaços, soltas e destruídas pelas atitudes.

A mentira que você pega para si, amamenta, cuida e protege. Superestima e deseja com todas as forças que não mostre o que realmente é. 

Corremos atrás de mentiras mal contadas, a mentira mais doce. No fundo, idealizamos verdades. 

E o tempo cruel vem te mostrar o quanto você estava errado em acreditar cegamente. O quanto você estava errado em não se proteger com a dúvida. 

Seu coração bobo está quebrado, prontinho para outra. Essa é a sua vida. Esse é o seu clube. "Algo novo está por vir" você pensa enquanto deseja uma morte lenta para o teu ex amor.

Você ouve canções tristes para te ajudar a esvaziar a dor. Não a dor de se decepcionar novamente com alguém, mas de se decepcionar novamente consigo mesmo. Veja só você, aqui de novo.

Só te resta chorar pelas mentiras contadas e descobertas. Aquele eu te amo era apenas uma falta de escolha para o momento, mas você amou ouvir. Ecoou por toda a sua alma, mas você sabia, era uma nova história de mentira, "mas porque não" você pensou e eu não te julgo coração. Não te julgo.

A gente vai vivendo de mentira em mentira. De decepção em decepção. De descoberta em descoberta. Um dia a gente aprende.

Não te preocupes, existe no universo um lugar especial para corações partidos. Eu só preciso descobrir onde fica.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

I've made ​​a big mistake


Se você tiver a chance de lamentar seus erros não perca a oportunidade. É verdade que iremos provar o gosto amargo das escolhas erradas. Por mais que vivamos um ciclo vicioso de falhas, nosso paladar nunca vai se acostumar com a sensação de ter perdido o controle, de ter deixado as coisas passarem do limite, de ter jogado fora chances extraordinárias de ser uma pessoa melhor, de poder recomeçar.

O tempo que durar o efeito desse turbilhão de sensações derrotistas, pode ser uma saída cavada pelas circunstâncias, para uma reflexão sobre você e sua incrível capacidade de errar. 

Estou falando de mim e do meu talento especial para cometer erros. Eu fui longe demais, mais uma vez. Bebi muito rápido do líquido que eu desconhecia. Sequei a taça, arruinei as expectativas.

E querer que o tempo volte parece tão mesquinho. Desejar o que milhares de errantes já desejaram em vão. O tempo não volta. Você só consegue ver um caminho à sua frente, cheio de portas erradas esperando para serem abertas. 

Um talento especial para cometer erros e desejar voltar atrás, porque a sensação é mesmo terrível.

Um tipo cansativo de ser, e você tem plena consciência disso. Sim, você melhor do que ninguém sabe bem onde estão seus defeitos. Você sabe onde estão os calos.

Se paramos para pensar um minuto, e nos perguntarmos porque as coisas parecem não acontecer na vida de pessoas reais como eu e você, ficamos sem resposta.

Roemos todas as unhas, perdemos cabelos, remoemos sentimentos, guardamos culpa, nos importamos demais. Não precisamos de ninguém para nos fazer sofrer. Desempenhamos muito bem esse papel.

Somos o nosso melhor carrasco. Todo mundo sabe que não é segredo, isso não para. É como parte de nossa existência. 

Errar eternamente. Quando vamos aprender a lidar com isso, é a questão.

Ps: esse post é apenas um escape para a alma dizer o que sente. Não precisa fazer sentido algum. 


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Life is light


Gather all your plans, steps, dreams, disappointments and settle in a bag. Take your failures, your mistakes and throw in a drawer.

The bag, put it in the back, you are totally responsible for what you wish for. Take the world in your back without expectations. It is almost certain that a thousand chances to be lost, but we lost much more than that without knowing.

Take what comes ahead, a chance that is. Make love as you can. Destroy the reason many times as possible. Live it now, and it’s not a cliche, I saw that it is possible.

Leave this melody playing, dance as the compass. Do not leave anything behind.

What about the frustrations, it's like everything in life. At first it is hard to accept, but then the soul learns that there is no evil that lasts forever and neither pain that lasts forever. We have the talent to redo it.

While I'm weaving these lines, I try to teach the same to me,  that the world turns, and the story of rays never fall in the same place can only be relative.

The world does not follow a rule. There is no ready ways. In this big context the great eternal Monday, we learn with the experiences.

 The life sips you drinking are what teach you how to live it better. It is not the amount of years you live, but the intensity with which it spilled the drink purpura intoxicating and addictive that is life.

Here, you turn castaways storyteller that never have felt the salty taste of the sea. This is common, but none survives. That is why I repeat the phrase, life does not follow a rule. For this dangerous disease no prescribed remedy.

Each one finds its cure like pilgrims looking for something in the horizon. We'll tattooing soul with the experiences. Bleeds and hurts, but it is sweet and addicting.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Fuga

Não, não me diga nada agora. Faço esse pedido. Quero ouvir o silêncio na companhia de uma xícara quente de café. Quero reorganizar o caos. As vezes sobram os cacos e as descobertas. É complicado digerir tudo de uma só vez. 

Cansei. Eu só quero um café. Quente, forte e cheio de alívio. E hoje nem é lua cheia.

Fico pensando no que cada um faz para se livrar de seus demônios.

Quem canta sobre a dor do amor. Quem escreve sobre o sofrimento de nunca tê-lo sentido.

Quem bebe por não entender ao certo a diferença entre a sobriedade e a embriaguez, quem se esconde por medo de encarar a vida, quem prefere ficar no escuro, quem prefere um cigarro, quem prefere um livro, quem prefere qualquer outra forma de artificio para não ter que lidar consigo mesmo.

Onde você busca companhia para se livrar de si mesmo, e da sua razão que está sempre pronta para te acusar?

Quem compôs a dor do amor e transformou aquele sentimento que retorce o peito e te deixa sem ar em uma melodia? Quero agradecer cheia de lágrimas nos olhos.

Quem cantava a dor do amor e não canta mais. Quem sabe dos seus problemas melhor que você mesmo? Ninguém busca as alternativas erradas enganado.

 Eu prefiro escrever. É uma forma de não deixar os sentimentos da vida me corroerem por dentro.

Cada um traça sua rota de fuga.

Eu já cheguei a escutar a mesma música mil vezes. Alguns decidiram morrer.

A prateleiras estão cheias de poetas mortos.

Os bares cheios de poetas vivos e mortos.

Não importa se a fuga é momentânea. Você só quer calar a reflexão, deixar de pensar no que traz peso para a alma.

É um ciclo vicioso. É a vida aqui.

Tudo passa mesmo. O efeito da fuga e a dor também. Seja ela qual for.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Desperdiçar

Esvaziei meus bolsos hoje e percebi que não me resta mais nada além de algumas moedas de valor pequeno, e uns poemas escritos em papéis de rascunho.

Eu procurei dentro de mim algo mais que eu pudesse usar como combustível para fazer a vida valer a pena. Lá no fundo, bem escondido entre planos desfeitos, sonhos adormecidos, objetivos inalcançados, vontades abandonadas, eu encontrei algo. Um tanto tímida, e abobalhada, eu vi um punhado de vida ansiosa para ser  desperdiçada. 

Eu olhei bem dentro dos seus olhos misteriosos e pude ver uma luz acesa. Ela me disse que quer atravessar o oceano, amordaçar a razão, e afogar o medo. Ela que correr os riscos da vida e da morte. Ela deseja ser mais que uma existência que o moinho do tempo consegue corroer. 

Ela me disse que não deseja dar seus últimos suspiros acomodada em uma cadeira de balanço na varanda de uma casa cheia de gatos. Ela não quer dar seus últimos suspiros olhando a vida passar na sua porta. Concordamos em lutar por um final mais interessante, por uma mente mais rica, por uma vida mais preciosa de detalhes e vivências. Concordamos em aumentar as doses de amor, os valores da aposta, as doses de tequila, as páginas de livro, os roteiros de viagem. 

Fizemos um trato. Vamos ouvir a mesma canção milhares de vezes sem reclamar, em vários idiomas diferentes, em diversos lugares longínquos, em montanhas, em litorais, em serras, em desertos, em qualquer lugar, em qualquer momento.   

Eu quero desperdiçar minha vida. Eu quero o céu e o mar. Eu quero amar. Quero descobrir livros que nunca li, quero ouvir canções que nunca senti, quero sentir lábios que nunca toquei, eu quero gastar meu tempo. 

Quero deixar para trás as mensagens não respondidas, abandonar as expectativas. 

Encontrar um rumo, uma razão, um sentido. Quero desaprender o caminho de volta para casa. Eu sou um pouco no mundo, sou pouco demais. 

Quero desafiar as distâncias entre os mundos. Romper continentes, provar que é possível chegar ao outro lado do mundo. 

Sem malas, sem expectativas. Sem nada. Nada além de mim, meus pés e um saco vazio de vida para ser cheio.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Roteiro infinito

Existe uma matilha de gritos ferozes querendo sair. Estão presos, engasgados. Esse é um dos muitos sintomas de uma doença chamada vida. Ela é silenciosa, mas te consome vagarosamente. Ela é sutil, mas é dolorosa. 

Vivendo por aqui, na terra dos vivos, você pode sentir muito, ou sentir nada. Você pode procurar freneticamente por sofismas para alicerçar o vazio indescritível que insiste em existir. 

A verdade é que nós morremos todos os dias, todos os dias nós morremos um pouco mais, e a cada dia vamos nos aproximando do abismo da inexistência. É a explicação mais sublime que eu poderia imaginar. Talvez a mais honesta e que eu ei de contar aos meus filhos, se os tiver um dia.

Lamento não poder reunir todas as dores desse mundo em um só recipiente, colocá-lo ao sol e deixar evaporar, sumir, desaparecer.

Nada é mais deprimente do que a certeza de que o mundo é tão imenso e a vida tão curta e incerta. 

Cada um de nós, é dono de um peculiar e curioso ciclo vicioso de vida. Acreditar, desacreditar e tornar a acreditar no amor é um deles. Esse é sem dúvida o mais comum entre os viventes. Acreditar, desacreditar e tornar a acreditar na humanidade também é um deles. Acreditar, desacreditar e tornar a acreditar em qualquer outra coisa que seja, também é um exemplo. 

Isso nos define. Estamos sempre acreditando em algo, sempre em busca de algo, sempre caindo nas mesmas armadilhas, sempre acreditando que "dessa veze será diferente", sempre apostando nos mesmos cavalos, sempre marcando os mesmos números, pelo simples fato de acharmos que "comigo vai ser diferente". 

E para quê reclamar das manias então? Se nós mesmos fomos concebidos pelo maior círculo vicioso que poderia existir. Nascer, crescer, se reproduzir e morrer. 

E somos como personagens abobalhados em um roteiro de repetições infinitas e apresentações curtas. 

No fundo, vivemos procurando o sentido errado da vida. Quem pode garantir que ao menos tenha um sentido afinal.

Quem garante ao menos que não estejamos sonhando?! 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Herança

Andei pensando nessa coisa incerta que é a vida e em como ela foge fácil de nossas mãos, deixando planos, ideias, sonhos e feitos incompletos pelo espaço.

Imaginei como seria se você soubesse o dia do seu fim com antecedência. Presumo que o sentimento não se compararia à expectativa de um parto, de uma vida por vir, algo como a luz surgindo.

Vida que vai e vem. Todos parados em uma estação, aguardando a vida e a morte, embora silenciosamente.

Uma das facetas mais admiráveis do ser humano é conviver com a certeza da morte e não se desesperar. Sempre penso nisso.

Viver com a certeza cruel de só se viver uma vez. Uma única e inevitável vez.

O cavalo celado, que com rapidez só aparece em tua porta uma vez. A vida é essa dádiva, que muitas vezes se assemelha a um castigo.

A vida, que nos é dada sem escolha. Cada um vai compondo acordes nas linhas dessa partitura.

Já dizia Milan Kundera, "a vida humana acontece só uma vez, e não poderemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos são dadas uma primeira, segunda, terceira ou quarta chance para que possamos comparar decisões diferentes".

Somos estreantes em um show único que só acontece sem ensaio.

Kundera vai ainda mais longe e afirma que "o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado".

"Uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca".

Recebemos como herança da vida o mal de morrer. Temos como consolo o que pode ser feito aqui enquanto houver ar para respirar, enquanto ainda restar forçar e batidas de coração.

Homens simples ou não, caminhando pelo mundo. Sendo imortais mesmo após sua morte. Carregando a herança serena e severa de só se viver uma vez.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O tempo, a divindade invisível

Você percebe que é forte e que todas as peripécias antes vividas são o tempero vívido da tua experiência presente.

Não se importar mais é uma dádiva. Dia após dia, fica da vez mais fácil se desfazer daquilo que já não contribui para manhãs alegres.

Nós, como mestres que somos, de complicar as coisas simples e torná-las insuperáveis. Isso ninguém no ensinou. É nato. É um vício. É um fantasma.

Indivíduos carregados de dúvidas, impasses, dilemas. Seres racionais que afirmam amores, confirmam ideais, assumem desafios, e na aurora desmentem, renegam, ignoram, renunciam e jogam por terra todas as palavras ditas. Seria estranho se fosse diferente. 

Você bate na porta esperando dramaticamente que o amor abra e te convide para entrar. Mas a maldita vida, a qual só se vive uma vez, te mostra que há aspectos mais infames a te esperar. Inclusive a covardia. Você entra e se joga se quiser. Ou desiste de vez. 

Talvez a maior dádiva advinda do senhor tempo, seja esquecer. Talvez, a maior peripécia da vida seja transformar o hoje no passado facilmente. O tempo apaga, dizem até que ele cura. O tempo, a divindade invisível. É só uma questão de se permitir, de ser maior, menos medíocre. É só uma questão de amar um pouco mais a si mesmo. 

Não consigo imaginar sorte maior do ser humano, que poder superar seus medos, e seguir adiante enquanto o mundo vai desabando sob suas costas.

O tempo vai devorando tudo silenciosamente. O amadurecimento é equivalente ao número de lembranças que você consegue superar e ao número de vida que você se permite viver. 

Talvez você não tenha uma cota de tentativas. Nesse caso, tentar é sempre uma boa opção. O resto, bem. O resto, deixa que a vida cuida. 

A vida sempre arranja um jeito de cruzar caminhos, e mostrar perante nossos olhos o que poderíamos ter sido, perdido, tido. E nessa lição dramática você se encontra, você reflete. Talvez seja possível ouvir alguns sussurros e risadas. 

Um dia, um dia, tenha certeza. Um dia você aprenderá, que o tempo, ele cura tudo.

terça-feira, 10 de julho de 2012

100 anos

É comum insistirmos em reprises ao invés de virar páginas e mais páginas. Algumas histórias ficam meio embaraçadas com o tempo. Insistimos em ler.

Gotas e gotas desfiguram o enredo. O pior mal é aquele que você faz a si mesmo. Atuamos então dramaticamente nessa história da qual já presumimos o final. Não será feliz, não será junto, não terá os ares livres de um sentimento, nem a delícia do sono compartilhado. Não será nada. Nunca foi nada.

Nunca foi nada além de uma história inacabada e manchada por peripécias. Quedas e mais quedas de percurso que só provaram ao longo do tempo que o que não é para ser, nunca será.

Chega a hora de fugir das despedidas e jogar fora todas as palavras, todas as palavras inúteis e agradáveis. Tão agradáveis de fazer o estômago tremer e os braços se esticarem. Palavras cativas, cativantes, que fazem escorrer vontades pelo corpo, afloram pele, aquecem almas.

Palavras que por um instante já fizeram um coração duro se desmantelar, e um ser totalmente individual desejar ser dois, dois em um.

100 anos de espera e uma intuição que se apresenta quase como uma maldição. Se manifesta em sonhos e quantos sonhos eu tive em que o medo se apresentava tão vivo... Agora ele é real.

100 anos esperando o vento soprar ao meu favor. Imaginava que gosto teria. Descobri que era bom, e que queria pelo resto da vida.

100 anos de espera e não há certeza, não há promessas. A própria vida já deixa claro desde os seus primeiros passos na humanidade: nada é tão certo que não possa ser desfeito, nada é tão perfeito que não possa ser destruído. 

Digo até mais e fecho esse livro do qual um personagem se exclui. Digo adeus. Mas no fundo não quero. Digo até mais. Nos vemos. Daqui a 100 anos, talvez. 


Assim são as expectativas. 

Olha, isso parece mais fácil do que eu podia imaginar.

domingo, 8 de julho de 2012

Esperei 100 anos pelos braços do destino. Na ultima madrugada ele se mostrou totalmente palpável e pulsante como um coração acelerado. 

Sinto que ainda não estou totalmente livre dos temores. Ainda. 

Sinto isso como um pequeno reflexo do que pode ser a felicidade. Algo avistado de longe, sem pretensões, sem expectativas, sem grandes projeções. 

Sim, estou falando do amor. Da vontade de não fugir pela madrugada. A vontade de estar. A vontade de fixar e abandonar antigos comportamentos. A vontade de caminhar pelas estradas sinuosas, não mais individualmente.

Isso ainda não é tudo o que sinto, mas caminha para esse precipício, onde dois são um, apenas se ambos assim desejarem.

Esse é o impasse. É isso que atormenta até a mais repousada alma.

Paciente o bastante. Sigo o embalo de amar até onde não ferir a mim.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Silêncio

Um gemido prematuro, algo quase impossível de sufocar. Gerado nas entranhas, não é fácil controlar. Ele quer ecoar. Penso que não deveria. Não pode se espalhar. É algo, digamos, feito para ser sussurrado ao pé do ouvido, para um, apenas um desprendido da multidão.

O sentimento primogênito, algo que enlaça o corpo inteiro em uma experiência de quase certeza. 
Um dia você cria a mania de não dizer as coisas para não perder o encanto. Uma vez dito está em cheque. 

Parece que não, mas você começa a trilhar a vida baseada na sentença que diz "não grite alto alegria, a inveja tem sono leve". Melancólico, porém verdade. 

A intensa batalha no mundo paralelo. Forças contrárias, pensamentos positivos. Admito, acredito bastante nisso. 

Os dias exigem cada vez mais introspecção. Tudo deve ficar bem guardado da pronúncia e personificado intimamente, em silêncio.

Escravos disso somos. Há quem decide arriscar. Eu não. Prefiro tudo quieto, sem grandes alardes. No fundo da minha alma desejo com todas as forças que possuo que tudo dê certo.

Coloco uma canção otimista para tocar enquanto desejo que os pesadelos sejam dissipados e nós, juntos após 100 anos, possamos permanecer quentes.

Gostaria de falar mais sobre o que sinto abertamente, porém sou discreta e secreta demais e o bastante para ficar em silêncio vendo o mundo girar.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Surpresa

Se você não consegue enxergar as nuances multicoloridas escondidas nas entrelinhas dos dias turvos, você provavelmente também não conseguirá perceber que a vida é um poço aberto de contradições.

O paradoxo da vida, de ser tão incrivelmente triste e ao mesmo tempo presentear-nos com a felicidade. 

A felicidade está nos mínimos espaços, nos mais impensáveis lugares.

As vezes concedida em poucas doses. As vezes percebida com muito esforço. As vezes desapercebida. 

Olhos tão ocupados. Corações tão magoados. Todos os sentidos destreinados pela rotina, deixam de sentir a beleza intrínseca na existência.

Ontem eu chorei, hoje eu sorri. Isso, para quem consegue ver, é uma dádiva do destino. Essa foi uma dose rasa, porém eficaz, da vida em mim.

Eu abri meus olhos hoje e vi meus pensamentos, tomando cada um, o seu devido lugar. Sorri. Cantei. Fui feliz hoje.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Precisamos conversar

Faz tanto tempo que sinto a mesma dor e nunca soube ao certo qual era a causa. Percebei então, que havia uma raiz profunda de mágoa e amargura crescendo em mim. 

Um contraste se fez perceber diante dos meus olhos. Como posso amar tanto que tem me feito tão infeliz?

Por que não olha nos olhos? Me tornei algo tão ruim aos 24 que não mereça teu afeto? Sou teu maior desastre? 

Eu cansei de me sentir errada e tomar para mim a culpa natural por ser filha. Tenho muitos pecados para pagar.

Hey, quando foi que se tornou tão difícil quebrar o silêncio? Quando foi que me tornei menos importante na sua vida?

Me pergunto se o remédio é a distância, ou o tempo, ou o perdão. Tem flores murchando nesse jardim. Essas flores são tuas. Não vou tentar regá-las sozinha. Não mais. Preciso buscar um jardim só meu.

Eu interpreto teu rosto enrugado como um aviso de que não vale mais a pena insistir. Somos duas almas incompatíveis.  

Te amo tanto, mas odeio tuas atitudes, e sei que sentes o mesmo de mim. Esse é o nosso impasse. Esse é o nosso dilema. Essa é a nossa vida. Um silêncio. 

É sempre inverno sobre nós. Os dias parecem estar mudando, mas continuam do mesmo jeito. Frios, calados.

A primogênita peculiar. Tu é um mistério. Esses teus cabelos grisalhos só me fazer ter medo de não te dizer com que número de forças eu te amo. São todas e ao mesmo tempo as que me restam.

São as nossas indiferenças que me atrasam na vida. Não posso mais ter 5 anos. Mas continuo sendo teu primeiro fruto. 

Preciso ir. Vou te olhar de longe e continuar desejando o que sempre desejei. Que sejas feliz. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Preâmbulo

Você se arrasta por distâncias incalculáveis, você beira o desespero, você pensa em desistir, você acorda naquela manhã cinzenta e sente vontade de ouvir uma música, ler um livro e tomar uma xícara quente e grande de café. Você prefere dormir. Você prefere o amor ao dinheiro.  Você ama alguém. Você finge que não.

Existem muitas perguntas sem respostas na sua vida. Anote em seu caderno e cobre isso da vida. Não é fácil, eu recomendo que sejas forte. Aliás, eu aconselho que sejas persistente. Não se preocupe com essas unhas cobertas de esmalte vermelho, nem com esse batom borrado em seus lábios, nos meus lábios. Cabelo despenteado é poético. Sinceridade é tão crime quanto assassinato. 

Sigo à risca as regras de coesão e coerência do mundo, não faço o mesmo quando se trata dos meus pensamentos. Eles são meus e não há regras. O coração bate forte a cada vibração da melodia, a mente raciocina e os dedos escrevem. É assim que funciona. 

Não dá para confiar na vida. Ela é sagaz. Não dá para confiar na coerência do meu raciocínio. Como em uma história cheia de peripécias, ele reposiciona em questão de milésimos de segundos a ordem das coisas nas quais vale a pena pensar. Penso naquele amor, penso no futuro, penso no que quero ser, penso na morte, penso em como esse texto é complicado de pôr um fim. 

Não quero ser um alicerce, sou tão fraca quanto você. Só deixo fluir o que está aqui dentro, congelado. Um dia de sol derrete o furor da frieza. Vamos ter fé. Um dia a gente aprende. Um dia a gente descobre a receita desse grande bolo cheio de mistérios que é o universo. Um dia essa canção vai dar lugar a outra mil vezes mais bela. 

Enquanto isso, eu vago por entre os dias, que alternam entre tristes e menos tristes, felizes e menos felizes. Um dia, no final da roda sem fim, a gente encontra a resposta universal. Os por quês da vida, da minha, da sua. O que vai mudar eu não sei.